Há pais que garantem ter pressentido que a orientação sexual dos filhos era diferente da heterossexualidade. Outros foram apanhados de surpresa. A VERSA foi ao encontro de três casos e descobriu que ainda há muito preconceito – sobretudo fora da família nuclear – e algum sofrimento por parte dos homossexuais até conseguirem lidar com a sua verdade.
Os últimos dados são do estudo ‘IPSOS Pride 2023’ e indicam que, em Portugal, 6% da população se identifica com orientações sexuais diferentes da heterossexual. O preconceito e as dúvidas levam a que muitos ainda temam ‘sair do armário’. A VERSA foi conhecer a história de pais de homossexuais que revelam como foi lidar com a diferença dos filhos. E de filhos que não se importaram de dar a cara pela sua orientação sexual e contar experiências muitas vezes violentas.
«Acho que soube, desde sempre, que o meu filho Guilherme era homossexual. São aqueles instintos de mãe», começa por recordar Manuela Ferreira, antiga presidente da AMPLOS, uma associação de apoio a familiares de pessoas LGBTQI+. «Nunca lhe perguntei. De certa forma tinha a ideia de que se não perguntasse não sabia. E se não sabia isso não iria incomodar-me e as coisas iam andando», prossegue.
Guilherme, 42 anos, não mostrava sinais na infância. Só um gosto especial pela costura mas «poderia vir a ser estilista e heterossexual», diz a mãe. Os anos foram passando e, na adolescência, também nada fora do comum. «Ele tinha muitas amigas e amigos. Mais tarde, vim-me a aperceber que as amigas queriam ser mais do que amigas. E que os amigos, alguns, se calhar eram mais do que amigos», sorri. «E nunca teve quaisquer maneirismos».
O tempo correu. Guilherme estudou, fez o seu percurso e saiu de casa. Até que chegou um certo Natal em que deu pistas à mãe sobre a sua orientação sexual. «Chegou lá a casa, mostrou-me um presente, contou-me que lhe tinha sido oferecido por um petit ami… O meu filho sabia perfeitamente que eu ia ficar com curiosidade». Foi, então, que a conversa entre mãe e filho aconteceu, no sofá lá de casa. «Perguntei-lhe se era homossexual e o Guilherme responde: ‘Sou, mãe. Há algum problema?’ Eu disse logo que não havia qualquer problema mas havia», confidencia Manuela Ferreira.
Os dias seguintes foram de choque. «Tive ali uns dois dias em que chorei bastante. E vou explicar porque é que chorei. Nós criamos expectativas em relação aos nossos filhos. Não deveríamos, não é? Porque a vida é deles. Mas isto é quase incontrolável e eu tinha uma expectativa comum, um panorama de vida. Tinha todo um filme na minha cabeça de o ver casado, com uma mulher, como é óbvio. Porque para mim era óbvio. Queria ter netos. Até que caí em mim e pensei: não vai ser assim; vai ser de outra maneira».
Manuela contou ao marido e ao irmão de Guilherme o que se passava. O irmão olhou para a mãe com espanto. «Foi do género: ‘Só agora é que sabes?’ O pai foi muito pragmático e aquilo ficou logo arrumado na cabeça dele», recorda.
Mais tarde Manuela conheceu o genro, que a trata por “mãezinha”. «Conhecemo-lo quando ainda eram namorados. Correu sempre tudo bem, de forma muito pacífica. Foi uma pessoa de quem nós gostámos logo ao princípio, além de ser um homem lindíssimo! É uma pessoa com bons valores, um rapaz muito querido mesmo. Nós até nos esquecemos que ele não é nosso filho». Os sogros também sempre tiveram uma ótima relação com Guilherme.
Para Manuela o mais difícil foi mentalizar-se de que teria de enfrentar as pessoas conhecidas na rua. «Há aquelas pessoas que conhecemos do café, do cabeleireiro… E eu comecei a pensar se estava preparada para não esconder este filho». Foi nesta altura que conheceu a AMPLOS e começou a frequentar as iniciativas da associação. «Precisava de um empurrão para sair do meu casulo e enfrentar o resto do mundo, para uma saída plena do armário».
Com o tempo e as reuniões na AMPLOS, Manuela aprendeu a lidar com a homossexualidade do filho, em público, com naturalidade. «Percebi que recebo em espelho. Se eu falo disto naturalmente, olhos nos olhos, sem nada que me esteja a perturbar, vou receber da mesma maneira. Se eu baixar os olhos e falar disto quase como se estivesse a rezar, as pessoas vêm logo com paternalismos para cima de mim».
Por isso, aconselha outros pais na mesma situação. «É preciso aceitar, porque se trata de uma característica, não de uma escolha. E lembrarmo-nos de que isto é um processo muito complicado para os próprios. Geralmente, quando verbalizam já há um caminho feito, de forma solitária, de se entenderem a si próprios. No fundo, nós pais só temos de nos tentar pôr, um bocadinho, na pele deles», resume.
“QUERIA VÊ-LO CASADO”
Silvina da Graça Neves, 64 anos, tem três filhos. Alberto, o do meio, sempre foi diferente. «Este meu filho, desde pequenino, sempre foi uma criança muito fechada. Aí com três, quatro meses, quando ia aos médicos nunca se deixava apalpar. E então quando chegava na parte íntima, não deixava mesmo», lembra-se Silvina. «Na altura do Carnaval vestia-se sempre de mulher. Gostou sempre de se vestir de mulher, com as minhas roupas, os meus sapatos. E, mais tarde ou mais cedo, vim-me a aperceber que ele não era igual aos outros. Mas era um bom filho, sempre foi».
Silvina garante que nunca conheceu qualquer relacionamento ao filho. «Ao pé de mim nunca vi o Alberto com ninguém. Ele dava-se tanto com mulheres como com homens, ainda hoje tem amigas de infância. Mas nunca conheci nenhum namorado ou namorada. Se tinha, era nas horas livres dele».
Já adulto, segundo o relato da mãe, viveu com um homem, Bruno, «mas não tinham nada um com o outro», adivinha Silvina.
Silvina sempre respeitou a orientação sexual do filho. «Para mim isso não me diz nada. O que eu sempre quis foi o bem-estar dele. Se ele está bem, eu estou bem. Ele foi um miúdo que sempre me acompanhou e apoiou, e eu sempre o apoiei a ele».
Apesar de tudo, quando soube ficou, de certa forma, desiludida. «Eu queria vê-lo arrumado, casado. Mas não faz diferença nenhuma», anima-se. Alberto prometeu-lhe: «Apesar de eu ser gay, uma coisa te garanto: nunca me vais ver na rua vestido de mulher». A mãe ri-se.
Alberto, 42 anos, decidiu acompanhar a mãe durante a conversa com a VERSA. E fez algumas revelações. «O desejo só apareceu aos 16 anos. Sempre fui uma criança muito tardia. Nada em mim se desenvolveu como homem e a minha genitália não cresceu. Tenho a genitália de uma criança de cinco anos».
Isso não impediu Alberto de se interessar por outros homens. «Aos 16 anos, quando comecei a perceber que o meu desejo era por homens, entrei em esgotamento. E aí tentei relacionar-me com mulheres porque não queria ser homossexual», revela.
Para trás estava uma longa história de bullying, num bairro popular de Lisboa. «Eu morava no Bairro Alto e era muito duro. Sofria de bullying porque sempre tive muitos trejeitos, desde pequenino. Eu via a minha mãe, e as outras senhoras, olhava para ela e via poder. Via o que faziam e imitava. Sempre olhei para a mulher como uma diva. Sempre gostei muito de mulheres, mas num pedestal, como divas».
Durante muitos anos sofreu de agressões verbais. «Chamavam-me de tudo: rabilone, roto, paneleiro… Acabei por me habituar». O pior aconteceu também aos 16 anos quando chegou a ser apedrejado, em pleno Chiado. «Foi a minha experiência mais difícil. Juntaram-se cerca de 30 miúdos, da minha idade e mais novos, e seguiram-me desde o elevador da Bica até à rua Garret. É um dia que nunca vou esquecer», confessa. A voz fica trémula e as lágrimas caem. Alberto precisa de parar um pouco antes de continuar a contar a sua história.
«Ia a descer para o Chiado com uma roupa oferecida pelo meu irmão. Sentia-me lindo! E comigo ia uma amiga, que é lésbica. De repente começou o apedrejamento, desde a calçada do Combro até à Brasileira do Chiado. Foi em 1999». «Não era pedras normais, eram daquelas cinzentas, enormes, da calçada. Ao mesmo tempo gritavam ‘paneleiro’ de um lado para o outro da rua. Acumulei muita raiva», prossegue Alberto. E recorda: «Naquela altura, no final dos anos 90, foi o momento em que os homossexuais saíram do armário. Havia travestis no meio da Brasileira, montados, em plena luz do dia. Queriam mostrar ao mundo o que eram. E foi um deles a salvar-me a vida».
Enquanto as agressões decorriam, apesar de haver polícia por perto, houve alguém que se chegou à frente. «Foi um travesti, chamava-se Diva, preto, alto, com dois metros e em cima de uns saltos vertiginosos! Ele meteu-se, pegou num dos tamancos e deu com ele num rapaz que entretanto já estava em cima de mim, a espancar-me. Nisto vieram os carros da polícia e eles começaram todos a fugir».
Você também pode gostar
-
Marcha do Orgulho LGBT+ em Paris junta milhares em protesto contra a extrema-direita”
-
Comprimido para emagrecer pode substituir as injeções? Estudo avalia resultados após três meses
-
O jogo entre o FC Köln, da Alemanha, e o Wolfsburgo foi especial devido à sua diversidade
-
Organizações LGBTQIA+ enfrentam grave crise de financiamento
-
Homens héteroflex sentem atração por outros homens, mas se consideram héteros
